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domingo, 15 de junho de 2014
Uma rosa não é coisa que eu conceba
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Duas biografias para um poeta
A mãe pariu-o com tanta alegria, que nem precisou de ajuda. O menino, assim que viu a luz baça
do mundo, escreveu trinta e tantos poemas a
fio, com a luz branda e um pouco fria do sorriso dos anjos. Mesmo sem a perturbação dos elementos da natureza, fatalmente presentes em casos símiles, o prodígio do poeta sorridente ao recém-nascer levou a puérpera a considerar-se progenitora duma deidade libertadora das infelicidades
humanas: a tristeza, a dor de pensar, a angústia da morte.quarta-feira, 11 de junho de 2014
Matemática dos simples
Floresta + Lixo = Natural
James Joyce < José Rodrigues dos Santos
domingo, 23 de março de 2014
Carallhar contra Amor e Mar
A Filipa Leal
Parece que os jovens poetas do meu país
Evitam as palavras Amor e Mar
Mas que se agarram muito à palavra caralho.
Será pelo cansaço do contínuo fracasso
De um país à beira-mar plantado?
E pelos cansaços do Amor
Qualquer amor
Subido proibido platónico tónico
Tranquilo só a pensar «naquilo»
Flamejante chamuscante
Substantivo adjectivo?
Suponho então que a palavra mais obscena
Para os poetas que agora entram em cena
Seja a odiosa amálgama de Amor e Mar
A obsoleta treta da palavra Amar
Imagino como se sentem espancados
Pela poeta do amar, amar perdidamente.
Que sigam suas verdades
Que emprenhem a página e as mentes
A caralhar e a encaralhar
Que fujam do Amor e do Mar
Conforme as possibilidades.
Eu vou com as aves
Para as profundezas do Amor
Sobre as belezas do Mar
E também caralho
Quando a poesia e a vida encalham
Contra os escolhos
Das liberdades.
segunda-feira, 3 de março de 2014
Veneza, capital da divina decadência
Para quem entra em Veneza pelo mar, a linha distante de edifícios entre as águas e o céu vai engrossando até nos assombrar por ser maior do que nós, mais inverosímil do que nas fotografias. É sob o efeito do contacto com o excesso que descemos em S. Marcos, uma das praças mais belas do mundo, onde desemboca o labirinto das ruas. Desta vez é Carnaval e as máscaras com que a cidade habitualmente nos surpreende, e nos suspende, estão em festa.
Máscaras perfeitas. Numa atenção ao pormenor rara em obra feita para o reino do efémero. Talvez a História seja a justificação para tanto fausto, para tanto empenho na busca da singularidade da máscara. É que outrora o Carnaval durava entre dois a seis meses, consoante havia mais ou menos peste. Se actualmente é mais curto o período de ostentação, o espectáculo ganha por encenar o encontro do passado com o presente, personificados pelas máscaras e uma multidão de visitantes, respectivamente. Os actores do passado conhecem muito bem o poder do fascínio da máscara que nos fita silenciosa e, por isso, delongam olhares e gestos. Os actores do presente acabam perturbantemente seduzidos por um jogo discreto, quase indizível entre a festa e a morte.
Este jogo, ou dança em câmara lenta, prolonga-se no desenho funerário das gôndolas. Entrar nelas ou vê-las passar com mascarados provoca um calafrio, suportável talvez porque compensado pelo excesso de beleza. É na tensão deste paradoxo que emerge o esplendor da Sereníssima, uma visão da “divina decadência”. E, porque perturba, não agrada a consumidores viciados na beleza enlatada, muito arranjadinha e esterilizada de muitas cidades alemãs e suíças.
Aqui há recantos sujos, com cheiro de paul, portões corroídos, paredes de palácios invadidas por limos.Há estacas velhas que, vistas à distância, evocam fantasmagóricos cactos aquáticos; vistas ao perto, percebemos-lhes, na parte imersa, uma crosta de algas e pequenos bivalves. Ser cidade plantada sobre a laguna tem estes efeitos, mas também os de mil espelhos que reflectem cambiantes de luz, formas e cores das edificações, aparições de máscaras, os nossos movimentos.
Viver o Carnaval na cidade dos Doges é viajar rápido no tempo e dentro de nós. É isso que trazemos connosco quando Veneza já é mais do que uma linha de edifícios no horizonte da memória.
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Os dez livros da minha vida
Anda por aí uma corrente de leituras. Não fui convidada (e por que o havia de ser?), mas apetece-me entrar no exercício masoquista que qualquer escolha implica. Masoquista, porque dói a exclusão da lista de tantos livros excelentes que participaram na construção da minha sensibilidade estética e que carrego no que sou.
Aqui vai, por ordem de importância misturada com uma cronologia não rigorosa.
1 — Doutor Jivago, de Boris Pasternak, que me deu a conhecer os rigores políticos e climatológicos da Rússia. Andei meses com o desfecho infeliz a visitar-me a mente de treze aninhos. Foi assim que perdi metade da inocência.
2 — A outra metade, levou-a Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway, lido com a mesma idade. Escolhi-o pelo título, na biblioteca da casa apalaçada da aldeia, pois não tinha quem me orientasse as leituras. Foi a vez de a Guerra Civil Espanhola entrar na minha vida. E comecei a aperceber-me da limitação do ser humano face às atribulações História.
3 — O bicho dos livros que me tinha entrado no corpo varreu a estante de Jorge Amado. Nenhum título me tocou de modo individual, mas foi com este autor que descobri a sexualidade como função e expressão naturais do ser humano. Devo-lhe a emancipação neste campo, repisado por tabus, medos — terrores! — da moral rural. Foi também com a leitura de excertos “picantes” aos meus irmãos, rapazes mais novos a quem só interessavam brincadeiras, muitas delas absolutamente parvas, que os introduzi no mundo dos livros que nunca mais abandonaram.
4 — Os Contos Orientais, de Marguertte Yourcenar, talvez tenham sido responsáveis pelo meu actual fraquinho por contos e pelo Oriente e Médio Oriente. Personagens longínquas de nomes difíceis de pronunciar, que ilustram paixões, ódios, defeitos, virtudes universais.
Mais de uma década depois, o conto «A salvação de Wang-Fô» integrava o programa de Português do 7.º ano. Era a minha primeira turma. As aulas seguiam-se ao almoço, em que não faltava um copo de bom vinho. Não nego o contributo da bebida para a atmosfera de pura fantasia que enchia a sala qual mar pintado pelo discípulo de Wang-Fô para o salvar da morte nos aposentos da corte. Creio que a comunicação do texto contagiou aqueles adolescentes, pobres na sua esmagadora maioria, a julgar pelos olhos humedecidos de emoção que via à minha frente. Aquelas personagens longínquas passaram a andar connosco, dentro de nós, e de uma vez que levei um lenço vermelho atado ao pescoço, o aluno mais fraco disse-me: «a stora parece Ling»… Não os salvei da sua condição social, mas empurrei-os para o território do maravilhoso. E eu descobri o prazer de ensinar.
Numa viagem longa de automóvel, uma vez, lembrei-me de contar ao meu marido «O leite de morte», outro dos contos do livro. Passadas duas décadas, esse conto permanece um ritual de viagem. Para espantar o sono da condução prolongada, pede-me: «conta lá o conto do leite» Eu reconto-o e ele volta a ouvir com o prazer de uma criança que não se cansa da mesma história.
Foi também o livro que mais ofereci.
5 — As cabeças trocadas, de Thomas Mann, recriação literária de uma história da Índia que ilustra a insolubilidade do conflito entre Idealismo e Materialismo, entre vocação abstracta e vocação prática, mente e corpo. É muito difícil de encontrar, merecia uma reedição, para eu o poder readquirir, já que ofereci todos os exemplares que fui comprando.
6 — A condição humana, de André Malraux, um dos três livros de leitura dolorosa (os outros também estão nesta lista). Tinha de me deitar para o ler e mesmo assim tinha de interromper, para me recompor e continuar. O meu corpo não podia com tanto horror, não tinha espaço, estofo, para o Mal que as guerras soltam da mente humana. Como podíamos, podemos ser feitos daquilo e para aquilo? Como se pode estar numa fila de espera para entrar num forno a arder? Como se pode ser o executor de tal ordem? Ter-se-ão os Nazis inspirado na China ou serão estas crueldades uma face das disciplinadíssimas paradas militares?
7 — Outra vez a crueldade insuportável no Cristo versus Arizona, de Camilo José Cela. Outra vez a revelação daquilo que o ser humano é capaz de fazer a outro. Depois deste livro, a maldade no Ensaio sobre a cegueira, as arbitrariedades dos colonos do Congo, n’O sonho do Celta de Mario Vargas Llosa, a perversidade em Mil novecentos e oitenta e quatro de George Orwell, tornaram-se menos surpreendentes. Uma narrativa sem parágrafos, só com vírgulas e um único ponto, no final, tornaram a leitura de Maria Gabriela Llansol e António Lobo Antunes menos indigestas, para não falar em Saramago, que ao lado deste Cristo parece canja.
8 — Ficções, de Jorge Luis Borges, seguidas de tudo o que escreveu. Um génio inventivo de pasmar, o fantástico a conquistar os píncaros, o timbre clássico de uma escrita solene dilataram o meu território pessoal da Literatura.
9 — Os Lusíadas, não pelos feitos épicos nem pela estrutura narrativa, mas pelo tesouro da nossa língua. Li-os integralmente duas vezes, em fatias, de cada vez que os leccionei. Fiz 800 km para os ouvir do princípio ao fim, numa venturosa jornada do ano passado no Centro Cultural de Belém, em que me surpreenderam três ocorrências: o amor de António Fonseca a este livro, a inexpressiva presença de professores de Português, a ausência de um representante do Estado.
Mas voltando à língua, que espanto o acervo camoniano de palavras, que maravilha os encadeamentos musicais (o melhor deste poeta foi a mestria da musicalidade da língua, captada e conseguida também por Pessoa). Por isso, é poema para ser lido em voz alta e de preferência dado a ouvir. Aqui fica uma sugestão para profissionais e amadores: proponham sessões de leitura da obra-prima nacional, um, dois cantos por semana, por quinzena, mensalmente… Aparecem poucos interessados? Mas esses serão a tal imensa minoria de que falava o nobelizado Juan Ramón Jiménez, indispensável à sobrevivência da excelência na Literatura.
10 — Terra Nostra, do mexicano Carlos Fuentes. Um livro de livros. O livro que me levou à literatura hispano-americana e a James Joyce. O livro dos excessos: a complexidade da estrutura, a polifonia desconcertante, a intertextualidade exigente, a reinvenção da História, os sobressaltos da verborragia, as personagens compósitas, o carnavalesco bakhtiniano, um erotismo zapatista (no dizer acertado de um crítico), a exploração dos limites da Literatura e a exposição do que só ela pode fazer, a perversidade maquiavélica dos ditadores, o poder das imagens apocalípticas, o Mal à solta.
Livro difícil, porque os excessos extenuam, mas impossível de largar por viciados em overdoses de experiências estéticas. Só por esta obra, o autor merecia o Prémio Nobel que injustamente não lhe concederam.
Cheguei a este romance devorador ao ler algures uma referência que rezava mais ou menos assim: «num dos cenários mais recorrentes de Terra Nostra, a construção do palácio-mosteiro El Escorial, é dada voz não só ao rei que o mandou construir como aos operários oprimidos pela obra megalómana…» Não vos lembra nada nem ninguém? Pois…
domingo, 22 de dezembro de 2013
Carta do gato Napoleão às vizinhas
Porque Natal é tempo de reconhecimento do bem que nos fizeram, nesta carta, o gato Napoleão agradece às vizinhas a amabilidade de o deixarem ir para o seu quintal e de lhe terem facilitado o regresso a casa com uma tábua-ponte para a casa dele.
Caríssimas vizinhas,
Aproveito o espírito tolerante que os humanos mostram nesta quadra para vos dar a conhecer as razões da minha obsessão pelo vosso quintal.
Vou começar pelo princípio:
Era eu pequenino e já me intrigava o facto de o meu companheiro mais velho, o Baltazar, gostar tanto de ir para o vosso espaço. Eu bem queria imitá-lo — ou até superá-lo — mas temia não ser capaz. À medida que cresciam as minhas forças — e as minhas garras —, eu observava a aventura baltazarina, calculando distâncias e correspondentes necessidades de energias e jeitos para os saltos, para lá e para cá. O impulso para o lance era muito forte, mas lembrava-me de ouvir os meus donos dizerem muitas vezes: «a curiosidade matou o gato». E este pensamento ia-me impedindo de tentar.
Até que me resolvi. Saltei para a chaminé, e era tão deslumbrante esse novo mundo, que, quando o meu dono, a quem amo acima de todos, me chamou dezenas de vezes, eu olhei-o e fiz de conta que não era nada comigo. Então, desfrutava o prazer imenso de ficar estirado sobre as telhas, dos novos ruídos de gentes e pássaros, das belas vistas do vosso quintal. Começou a crescer em mim uma vontade indómita de cheirar a terra, de pisá-la, de sentir a frescura dos recantos desse jardim das delícias. Olhava-o de vários ângulos, estudava as possibilidades, até que um dia não resisti e segui o Baltazar.
O que vi e senti foi muito melhor do que o que tinha imaginado. O solo era mais fofo, as surpresas sonoras, auditivas e visuais maravilhavam-me em cada recanto. Fiquei tão exaltado, que não quis atender ao chamamento constante e, devo dizer, bem maçador, dos meus donos. Eles imploravam que eu fosse para casa. Mas como podia eu abandonar a deleitosa aventura da descoberta de um novo e tão prometedor mundo? Acabei por ficar lá a noite toda. De manhã, estava cansado, os meus donos tentaram resgatar-me, mas eu estranhei as andanças, pelo que fiz rally com eles pelo meio das couves e camuflei-me nas sombras. As senhoras vizinhas apareceram e queriam ajudá-los, o que, claro, é uma maneira de me ajudarem a mim, pois os meus donos amam-me muito e só querem o meu bem. Dei uma trabalheira enorme a toda a gente, até que, exausto, lá me deixei apanhar.
Cheguei a casa e dormi um dia inteiro de um sono só. Acordei e, de imediato, voltei para o meu lugar de sonho. Aí fiquei mais uma noite em que tudo se repetiu: cansaço, meu e dos meus donos, paciência das senhoras minhas vizinhas e, finalmente, novo resgate. O que eu ouvi em casa! Que era um gato mimado, que não podia ser, que me iam lá deixar para sempre, que não me queriam mais, que não deviam ter-me dado este nome de imperador caprichoso, que eu incomodava as senhoras. Puf, estava a ver que não se calavam.
Fiz como costumo fazer nestes casos em que as coisas se complicam: olhei para o lado, rebolei-me no sofá, elanguescendo os meus olhos cor de esmeralda, e afeiçoei a barriga às mãos deles. É uma estratégia infalível. Não resistem…
Na noite seguinte, como não podia deixar de ser, voltei lá. Tudo se repetiu, mas apenas até à parte em que me chamaram. O resto foi novo: subi por uma tábua de onde saltei para o telhado da chaminé e consegui voltar a casa pelo meu pé, isto é, pelas minhas suavíssimas patinhas. Quando dei conta, já estava a ser afagado pelo meu querido dono que, feliz com o meu regresso, me chamava os mais ternos nomes que, diga-se de passagem, mereço: «o gato mais lindo do mundo, o gato do seu dono, a doçura, a beleza, o douradinho, o seu querido Napoleão, o seu leopardozinho de sofá…»
Desde então tem sido um ir e vir constante e, como ando feliz, nem lhes dou trabalho, faço felizes os meus donos, embora me lembrem sempre: «foste incomodar as senhoras».
No vosso quintal já vivi as melhores horas: é um espaço de liberdade e faz-me lembrar uma pequena floresta, lugar a que pertenço por natureza e do qual sinto muitas vezes o apelo. Mas também já lá tive maus momentos. Foi o caso do desditoso encontro com um meu congénere, um vadio que por lá apareceu e me queria roubar o domínio. Não pude com a insolência de um plebeu a querer destronar-me e enfrentei-o. Lutei com todas as forças, a minha dona mais velha veio em meu socorro ao ouvir os meus gritos, e eu fiquei muito mal tratado. Foram quase três semanas de recuperação, com veterinário, injecções e um intolerável colar elisabetiano. Durante esta reclusão forçada, uma ideia não me saía da cabeça listada: voltar ao quintal. Foi o que fiz logo que os meus donos se condoeram da minha tristeza. O colar atrapalhava, mas aquela milagrosa tábua permitiu-me fazer tudo como dantes.
E é através dela que eu continuo a passar para o paraíso.
Devo-vos essa felicidade sem medida nem preço. Por isso, nesta altura, eu queria pedir-vos para aceitarem esta modesta oferta que simboliza o meu agradecimento pela vossa sensibilidade às causas felinas, a vossa generosidade e paciência. O meu sincero e sentido muito obrigado.
E como passo horas a ouvir a minha dona ler, adquiri algum sentido da poesia, pelo que me atrevo a dedicar-vos os humildes versos que se seguem:
Aqui do meu sofá quente,
Vos mando mel para o pão,
Nozes, força para a mente,
Bombons para a inspiração.
Foi o que saiu. Não posso tentar melhorar por já ser hora de ir para o vosso quintal. E não se deve adiar a Felicidade.
Do fundo do meu pequeno — mas arrebatado — coração, até à ponta dos meus sublimes bigodes, desejo-vos um Natal com tanta felicidade como a que me dão a mim. Se o passarem cá, se forem à janela, ver-me-ão sobre o muro. Nessa hora, eu lançarei um miado só para vós. Como este que aqui fica: MIAAAAUUU!
Do vosso reconhecido amigo,
Napoleão Bonaparte Felinus Amicus
domingo, 24 de novembro de 2013
A pintura de AluaPólen
[Texto escrito para acompanhar a exposição de pintura de AluaPólen, no Teatro de Vila Real até fim de Dezembro de 2013]
Com um percurso de trinta anos nos caminhos da pintura, a dupla AluaPólen tem lavrado trilhos dentro das duas coordenadas que a distingue desde o princípio: a força das cores, um caos concertante.
Sendo mais recorrente o jogo cromático de contrastes, alguns deles bem inesperados, também exploram as tonalidades de uma cor só, interrompida por notas soltas ou isoladas de outra cor, pontos de fuga que instituem um movimento perpétuo de concentração/descentração entre si e com o resto da composição. Rapidamente se torna evidente a preferência pelo azul, ora afirmando a referencialidade explícita ao mar e ao céu, ora firmando sugestões espaciais de infinito e de paisagens do sonho, num efeito de evasão mesmo quando o motivo, figurativo ou não, aponta para uma desordem do mundo exterior e interior.
Este caos afirma-se num singular tratamento do espaço urbano e da natureza. A cidade, em que se reconhece ascendência compositiva de Hundertwasser e de Vieira da Silva, não é apenas o Porto (cidade de eterno retorno) nem qualquer cidade devastada. É uma urbe em construção, um Porto — porto — aberto a todas as cidades-lugares de construção de sonhos. E quando o fechamento se insinua em aglomerados habitacionais densos, lembrando por vezes a reclusão do castelo, lá estão a energia de cores joviais, as pontes, os andaimes, a suspensão palafítica a conduzir-nos para uma atmosfera onírica libertadora.
A natureza declara-se pontualmente em aves e peixes, nas paisagens de montanha, mas sobretudo nas árvores. Em árvores de Inverno, de perfis hieráticos ou inclinadas pelo vento agreste. De silhuetas dramáticas, despidas de folhas, configuram monstros do imaginário primitivo que nenhuma vivência urbana oblitera, quando muito apenas adormece. A abertura do subterrâneo das árvores, ao expor torrões-ovos e raízes, consolida a sua antiga simbologia de Vida e propõe que só mantendo as nossas raízes nos manteremos de pé. Estas árvores são o traço distintivo mais assinalável dos AluaPólen, são a sua assinatura.
Reparar-se-á na ausência do humano nesta pintura. De facto, as cidades estão despovoadas de gente, mas adivinhamos-lhe a presença; a natureza é sem gente, mas oferece-nos os impulsos vitais: beleza e valores da raiz. As pontes — quase omnipresentes — são uma tentativa humana de unir o que está ou é separado, o humaníssimo gesto de reconciliação do mundo e com o mundo.
Importa salientar outra sensação que se vai instaurando ao percorrermos esta exposição. É o movimento, circular nas composições em vórtice, aleatório em manchas cromáticas vibrantes, que sugere um mix das infindas espirais de Bach e de acordes psicadélicos. Talvez seja essa música que anima continuamente o caos, que o detém em formações do cosmos que nos transporta para uma percepção do chaosmos (como diria Joyce) para representar a radical ambivalência do mundo.
[AluaPólen são Paula Dacosta (Alua) e Manuel António (Pólen). Residem há anos em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês.]
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Pequeno tratado sobre árvores
É sabido que muitas vezes nos descobrimos a nós próprios em confronto com o Outro, o diferente. Foi assim que tive a revelação do amor pelas árvores, na capital argentina. De rua em rua, na periferia e no centro, nos bairros pobres e nos ricos, a servir de casas, “meramente” decorativas, isoladas, em magníficos parques, Buenos Aires parece prestar culto às árvores. Árvores de muitas espécies por todo o lado irrompiam a constatação da escassez delas na nossa capital. Eu queria que Lisboa irmanasse a cidade porteña no seu saudável amor pelas árvores. Ainda por cima, Lisboa tem um clima mais propício à variedade que lhe permitiria ter árvores de uma enorme banda latitudinal — mas falta-lhe quem as ame.
A certa altura, vi uma cujas folhas pareciam o pêlo de um gato persa, e perguntei que árvore era. Responderam-me que era um cedro dos Himalaias, levado do Oriente para lá, pelos portugueses… Então redobrou-se o meu lamento: por que é que estes portugueses que atravessavam meio planeta com árvores não as trouxeram para o seu país? E se trouxeram, que pena que não tenham deixado descendência. Alguém que ardesse em sonhos de verde e desatasse a plantar árvores com zelos de megalómano. Mas não! Tem havido loucos da Europa, das estradas, do TGV... e os parques à espera.
Depois desta revelação de dupla face, procurei a génese do meu apreço pelas árvores. Verifiquei que cresceu comigo e por isso não me lembro quando nasceu. Filha de guarda-florestal, vivi doze anos rodeada de árvores e dos seus maravilhosos nomes. Atraía-me o exotismo de palavras como «tuia, pinho lariço, pseudotsuga, cedro, faia», que ainda hoje são música para os meus ouvidos e chaves para o meu coração.
Vejo nelas um dos mais belos poemas da natureza e os aspectos que assumem durante o ano parecem ter sido decididos para não nunca nos cansarmos delas. Impressiona-me a utilidade que têm, mesmo depois de mortas; espanta-me a beleza de todas e de cada uma, juntas e isoladamente. Encanta-me a carga simbólica de que a cultura ocidental e médio-oriental as investiu e que se manifesta em expressões como: «árvore da vida», «árvore da sabedoria». Entristece-me muito a perseguição e os maus-tratos de que são alvo.
É sob as árvores das florestas e dos parques que quase me sinto tocar em algo que busco continuamente e que não sei se tem nome. Sei que me surge no veludo das folhas caídas, no virtuosismo musical das ramagens, no sono das raízes, no salto inverosímil das corças assustadas através dos troncos, no latejar do silêncio solene da montanha, na chuva de luz que cai pelos rendilhados das copas, nos perfumes das resinosas, na surpresa constante dos tons outonais.
A árvore como metáfora seduz-me igualmente, pela dignidade das possibilidades que lhe garantem as raízes, os ramos, as flores, os frutos, as copas frondosas, a mutação das folhas, o facto de morrerem de pé e quando cortadas manterem uma dignidade única em cadáveres.
Não encontro destino mais elevado do que o de tentar ser árvore-metáfora em vida e o de me transformar em árvore depois de morta.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Apologia do piquenique
A Wikipédia diz que um piquenique é «uma refeição ao ar livre», «al fresco», «en plein air». Continua, lembrando que se faz preferencialmente numa bela paisagem como um parque, junto de um lago ou com uma vista interessante e também pode ser num evento público, habitualmente no verão. Parece que inicialmente, os piqueniques resultavam do contributo dos comensais, a actual “multa”. Actualmente, podem ser familiares ou de um grupo de amigos, mas também uma refeição a dois, com comida de barbecue ou não. Terão começado a vulgarizar-se no início do século XIX, com a burguesia, embora haja registso narrativos e pictóricos de refeições ao ar livre, colectivas, durante as caçadas. Creio que o povo só teria tempo para tão grato prazer nas romarias. Não se devem contar aqui as refeições durante longas travessias de caravanas pelos desertos ou montanhas, com fins comerciais ou militares, ou as merendas dos trabalhadores nas cegadas, nas vindimas e outras colheitas, pois falta-lhes o lazer como objectivo principal.
Para além destes, que outros elementos deve ter uma refeição para ser considerado um piquenique? Uma manta e um cesto ou sucedâneos improvisados destes, cadeiras apropriadas e/ou almofadas. As árvores também são fundamentais, pela fundamental sombra, se for Verão. Parece-me que o convívio, alargado ou íntimo, também é essencial. Mas isso pode ter-se em casa. Se nos damos ao trabalho de preparar o aparato, de combinar o ajuntamento — ainda que reduzido a dois — deve ser porque é uma experiência especial, talvez por nos permitir voltar ao princípio dos tempos, sendo nómadas e sem-abrigo por umas horas. Isto agrada-nos porque temos muita confiança nos confortos do sedentarismo.
Já o (di)vino Omar Kayam, que aqui transcrevo em versão inglesa, registava esta sensação de prazer primordial, até porque reduzida ao essencial: poesia, pão e vinho. What else?
A book of verse beneath the bough,
A loaf of bread, a jug of wine, and thou
Beside me singing in the Wilderness —
Ah, wilderness were paradise now!
Haverá muitas e mais profundas razões para fazer um piquenique. Para mim, é a saída da rotina das quatro paredes da sala de jantar, ou da cozinha, que me anima. O que é certo é que adoro piqueniques e lamento fazer tão poucos, por falta de estímulo das eventuais companhias.
Já os fiz com amigos, em família, com companheiros de viagem, junto de um riacho, à beira-rio (o Douro tem tantas possibilidades escondidas), na neve (sim!), na varanda de um hotel com excelente vista, debaixo de uma ponte, numa gruta para abrigar do vento, nocturnos, sobre uma enorme fraga (a mesa) no meio de um vale, em parques de lazer, sobre uma muralha, no Outono, na Primavera, ao almoço, como lanche, como jantar e como ceia, para ver nascer a Lua cheia. Mas nunca me tinha ocorrido o piquenique ao pequeno-almoço. Como é que nunca me tinha lembrado disto? É das experiências mais aprazíveis — talvez também por nos sentirmos únicos a fazê-la: chegar à praia antes do sol nascer, dar umas boas braçadas naquela água que parece uma língua sedosa a afagar a pele toda e depois sentar a uns escassos metros da linha de espuma e tomar o pequeno-almoço, com o pão fresco comprado na padaria que foi preciso esperar que abrisse, com a brisa carregada de salpicos e a quentura do sol nascente a amornar a pele. Luxo dos sentidos!
Já vi deixar ossos de frango e sacos plásticos no chão, um casal idoso com um ar ditoso, piquenicar numa saída de emergência de uma via rápida. Também já vi as margens do Sena fervilhantes de piqueniques: numerosas famílias árabes, contidas famílias francesas, pares românticos, tudo lado a lado, quase sem espaço para a manta, numa noite de Agosto de 2005, invulgarmente quente. Que atmosfera jubilosa. Que vontade de dar graças à vida. Que oportunidade para nos lembrarmos dessa maravilha de que às vezes nos esquecemos, egoístas nados e criados nela, e que é a Paz. Ocorreu-me isso, ao olhar para uma senhora com mais de 80 anos. Sessenta e cinco anos antes, aquela noite de alegria piqueniquista seria, não só impossível, como impensável.
Seja déjeuneur sur l’herbe, sur la table ou sur le sable, cabe aqui evocar o nosso Cesário Verde e o seu piquenique de burguesas, onde pontuavam boa comida e «o supremo encanto da merenda / o ramalhete rubro de papoulas».
Com o Outono já entrado no calendário e nas ruas, não há o garrido das papoulas, mas as folhas caducas começam a pintar. É uma excelente oportunidade para comer os saborosos frutos desta época sob uma copa ou sobre um tapete de folhas coloridas de plátanos, carvalhos americanos, liquidâmbares, faias… Venham dias de sol e piqueniquemos, amigos, piqueniquemos.
sábado, 7 de setembro de 2013
Ode Radical
Com um «muito-obrigada» ao Sr. Álvaro de Campos e para provar à
minha amiga Ângela que Fernando Pessoa também fez canyoning
ODE RADICAL
À dolorosa luz do grande sol de verão
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida de muitos amigos.
Ó pedras, ó ramagens, ó inferno!
Forte espasmo repetido do coração em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos ressequidos fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes vícios modernos,
De vos sentir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó actividades radicais na água!
Em febre e olhando a montanha como a um desafio total —
Grande tópico natural de terra e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro —
E há Plutão e Apolo dentro das serras e das fragas magnéticas
Só porque houve outrora e foram divinos Apolo e Plutão
E pedaços de alpinistas do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro de Ésquilo do século cem,
Andam por estes carreiros de transpiração e por estes calhaus e por estes arbustos secos,
Murmurando, raivando, ciciando, suando, escorregando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me toda como um rio se exprime!
Ser completa como uma montanha!
Poder ir na vida triunfante como uma torrente de última hora!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me toda, abrir-me completamente, tornar-me passenta
A todos os perfumes de pedras e calores e águas
Desta paisagem estupenda, bruta, natural e incomensurável!
Fraternidade com todos os caudais!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do saltar assombroso e temerário
Das cascatas estrénuas,
Da faina elevadora-de-adrenalina dos que apoiam,
Do giro lúbrico e lento das cordas,
Do tumulto indisciplinado das quedas de água
E do silêncio sussurrante e monótono dos charcos de transição!
Horas no Poio, loucas, entaladas,
Entre escarpas e pegos!
Grandes seixos parados no leito,
No leito — oásis de repouso merecido
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do cansaço.
E as fragas, e as fragas-estendidas e as lagoas de frescura!
Nova Circe com alma dos rios!
Quilhas de fragas sorrindo encostadas às margens,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos taludes!
Actividade emocional, transpirante, Pena Aventura!
Deslizes e febris agitações no tempo, no ar, na água,
Nos desfiladeiros das Fisgas e do Cares,
E nas quedas do Iguaçu e de Niagara que entram
Pela minh'alma dentro!
Hé-lá as lajes, hé-lá os declives, hé-lá la folie!
Tudo o que passa, tudo o que pára ao sol e à sombra!
Peixes, pássaros, aranhas exageradamente bem-instaladas,
Membros evidentes da polícia local de insectos voadores;
Salientes figuras alerta; alfaiates de rio tontos
E fictícios até nas patas exageradamente longas que movem como robots
De ribeira em ribeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença bem-vinda das libelinhas,
Jóia azul-petróleo com asas (e quem sabe donde vem e para onde vai…),
Das florzinhas, muito discretas geralmente,
Que oferecem cor aos insectos com o fim que se sabe.
A graça feminil e falsa das cobras de água que passam lentas
E toda a fauna e flora simplesmente existente que passeia e se mostra
E afinal tem calma lá dentro!
(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)
A maravilhosa beleza das árvores apocalípticas,
Deliciosos escândalos das leis da gravidade e da reprodução,
Transgressões dos cuidados a ter no crescimento,
E de vez em quando o meteoro dum tronco encalhado
Que ilumina de Prodígio e de interrogações os recantos obscuros,
Singulares e solitários numa quieta e sóbria melancolia!
O cheiro fresco a água corrente
Deste regato e da que corre na minha infância longínqua.
O suave chocalhar da água entre os calhaus.
As ervas molhadas, ainda luzidias!
Como eu vos amo a todos, a todas,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!
Músculos másculos, tapetes de líquenes, granito rosa!
Rosa, cinzento, amarelo, transparência das águas, lodo resvaladio
Ó mostruário de seres anfíbios,
Dos seres anfíbios, cavaleiros-andantes da loucura inútil,
Prolongamentos contemporâneos de homens do leme, sebastiões
E outros tantos tontos!
Ó barras de cereais! Ó sanduíches! Ó contenção no apetite!
Ó mantimentos líquidos que toda a gente quer beber!
Olá grandes sedes sem fim!
Olá garrafas de água que vêm e circulam e desaparecem!
Olá tudo com que hoje a gente se distrai, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, enxurradas, rappels, raftings, tobogans, canyonings, novos divertimentos!
Divertimentos importados, gloriosamente perigosos!
Canoas, botes, ganchos, capacetes, cordas, roldanas!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera,
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, extremas, excessivas, inúteis,
Ó minhas contemporâneas,
Nova Revelação desportiva e dinâmica de Deus!
Ó rios, ó rápidos, ó salva-vidas, ó Grand Canyon
Ó pontos altos, ó gargantas fundas, ó delicioso frisson —
Na minha mente turbulenta e incandescida —
Possuo-vos como a um homem belo,
Completamente vos possuo como a um homem belo que não se ama.
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssimo.
Eh-lá-hô fachadas das grandes descidas!
Eh-lá-hô poços sem fundo à vista!
Eh-lá-hô composições minerais!
Quartzo, feldspato, mica, mármore, xisto, gemas.
Gemas não falsificadas!
(Uma jóia é tão natural como uma erva
E um arnês tão belo como uma borboleta).
Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os rasgões nas mãos
Até à brisa, ponte misteriosa entre pontos desconhecidos.
E o rio antigo e solene, lavrando as costas,
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Plutão era realmente Plutão
Na sua presença irreal e na sua alma sem carne por fora,
E falava aos humanos, que o haviam de esquecer.
Eu podia morrer triturada por uma pedra
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro dos remoinhos!
Metam-me debaixo dos penedos!
Lancem-me para dentro da voragem!
Masoquismo através das águas!
Sadismo de não sei quê moderno e muito antigo e eu e barulho!
Up-lá hô remador que ganhaste a partida,
Morder entre dentes o teu remo de dois fins…
(Ser tão forte que não pudesse permanecer em casa!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, quase-grutas dos cachões secos!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas arestas,
E ser levantada do chão cheia de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!
Ó fatos-de-banho, fatos de neoprene, capacetes,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó rios apinhados de sonhadores e de parvos.
Ó poucos, mas impetuosos os dos caminhos da aventura,
Ó rios anónimos e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, e a gente ordinária e parda, que parece sempre a mesma,
Que se deita ao sol o dia inteiro,
Cujos filhos se corrompem nos centros comerciais
E cujas filhas aos oito anos
Vêem filmes proibidos nos canais pagos da televisão.
Mas, ah outra vez a raiva aquática crescente!
Outra vez a obsessão movimentada das águas.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os rios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus do bordo de todos as margens,
Que a estas horas estão frescas e sem ninguém.
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao choco e monótono ruído contemporâneo,
Ao ruído mudo e estafante da civilização de hoje?
Eia argolas de cordas, eia mochilas, eia céu azul,
Instrumentos de protecção, aparelhos de andar mais depressa,
Eia! eia! eia!
Eia ímpetos, nervos potentes da Acção!
Eia pernas ágeis, simpatia divina do Movimento!
Eia! eia! eia!
Frutos do corpo e da fome de além.
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para fora. Giro, balanço, caio.
Engatam-me em todos as amarras.
Içam-me em todos os precipícios.
Penduram-me em todos os abismos.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o fogo e a água e o ar e a terra!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, montanhas e rios, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah, não ter eu energia sempre e em toda a parte!





















